16.9.10

30 Days Letter Project [letter #17 — someone from your childhood]

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais


Eu acabo de ler uma fanfic [da qual eu realmente preferiria não ter terminado de ler nesta madrugada] que me fez pensar muito e que me fez sentir a necessidade de escrever esta carta em especial. Ouso dizer que esta fic foi uma das melhores que já li. Que estava chorando até dois minutos atrás e que esse choro começou desde o capítulo 22. Sim, posso dizer que, por conta desta fic, estou chorando há quase uma hora [e tenho certeza que ao decorrer deste post mais lágrimas chegarão aos meus olhos em cairão pela minha face].

Choro por ela me fazer lembrar de uma pessoa da qual amei muito. E amo até hoje. Alguém que pintou minha infância com sorrisos verdadeiros, dias brilhantes e felicidade. Lamento tanto dizer que essa pessoa pertenceu somente à minha infância. Ele foi embora cedo demais.

Felipe era meu primo. Filho mais velho da irmã caçula da minha mãe. Tia Bel e minha mãe sempre foram muito unidas e o fato da tia Bel ser minha madrinha ajuda ainda mais.

Por conta disso nós [eu, minha irmã, Felipe e Ivan] praticamente crescemos juntos . Por termos pouca diferença de idade, isso tornou muito mais fácil, já que o resto dos meus primos sempre foram mais velhos.

É difícil lembrar a quantidade de vezes em que eles vieram aqui em casa aos sábados ou domingos para almoçar [a sempre detestada bacalhoada]. As vezes em que a gente ia na casa da minha tia e brincava com as arminhas, para depois nossas mães brigarem com a gente por ter jogado os brinquedos pela casa toda. As milhares de horas que passávamos brincando durante as férias de verão na praia. As competições de corrida para ver quem chegava primeiro no mar. Ou quando o Ivan ficava no gol e eu ia bater o pênalti, o Felipe vinha e sussurrava que era para eu passar pela bola que ele viria logo atrás para chutá-la. E ele sempre fazia o gol.

Não tinha como negar: ele sempre foi a estrela da nossa família. Sempre fazendo piadas e sempre nos fazendo rir.

É estranho. Parando para pensar agora me recordo de tantas coisas. Como meu tio ficava louco quando visitavámos o depósito de construção e íamos para fundo, onde os montes de areia e pedras ficavam. Tínhamos o prazer de pegar as pedras e jogá-las nos montes de areia. Não sabíamos que não podia, que era errado, que não era pra ter pedra entre a areia. Achávamos tão divertido. Acho que ainda posso ouvir nossas risadas.

Ou das vezes em que eu, Ivan e Felipe íamos na nossa enorme psicina de mil litros e ficávamos brincando de "O moscão e os dois mosquitinhos". O moscão era o Fê, lógico, já que era o mais velho. Era meio que uma brincadeira de lutinha. Eu e o Ivan tentávamos derrubá-lo na água, mas ele sempre acabava ganhando. Sempre. 

Felipe me ensinou a andar de bicileta sem as rodinhas do lado. Era atrás dele que eu corria sobre meus patins. Foi ele que ferrou minha mão uma vez, quando eu corria atrás dele para pegar a bola de basquete que estava nas suas mão. Uma hora ele a soltou e eu tive o dom de pisar nela e cair feio no chão duro e chapiscado. Eu lembro do desespero dele quando ele viu o sangue na minha mão enquanto me levava para casa dos meus tios. Quando meu pai passou o mertholate, [e era no tempo daqueles que ARDIA e que você começava a chorar só pelo fato de ter que passá-lo] foi o Fê que assoprou a minha mão. Foi ele que conseguiu ser "engolido" pela cadeira de sol quando sentou-se nela. Ou quando, depois de ver um filme do Jean-Cloude Van Damme [aquele do dragão] e tentou dar um chute no ar e acabou caindo de bunda no chão.

Eu adorava quando ele me colocava sobre seus ombros e começava a andar por aí. Na fita do meus único aniversário real [com festa e tudo] de 9 anos, tem ele, depois de eu implorar, me segurando pelos ombros, fazendo pose para meu pai que filmava, falando eu que era o casaco de pele dele.

Era impossível não rir quando ele estava por perto.

Lembro de uma tarde chuvosa, da qual todo mundo estava junto, até mesmo meus primos mais velho da praia. Eu ficava revezando entre ficar na psicina de água quente e brincar com todo mundo. E é lógico que eu brinquei de lutinha com o Fê. Ao lembrar disso só consigo pensar que nós éramos os donos do mundo quando estávamos juntos. A diversão nunca teria fim.

Nem me atrevo a contar as vezes que o Fê teve que me ensinar truco [uma coisa que acontece até hoje]] e toda vez ele me explicava com tanta paciência. As vezes em que tudo o que a gente queria era comprar o Morumbi e Interlagos no Banco Imobiliário, só pra poder ferrar todo mundo que caísse ali. As incontáveis partidas de tapão. A vez em que compramos bexigas e fizemos uma guerrinha de bexigas d'água.

Lembro uma vez que levei meu pequeno diário para as férias e ele escreveu uma nota para mim. Ele dizia o quanto gostava de mim, o quanto era especial, o quando era engraçada e o quanto eu era bonita. Nunca irei me perdoar por ter perdido essa pequena folha onde ele escreveu, com sua garranchosa letra de menino, o quanto ele gostava de mim.

Uma vez, quando fui na casa dele, percebi que o Fê tava crescendo. Ele comprou alguns pesinhos e ficava fazendo exercícios com eles. Queria ter o braço forte que nem meus primos da praia. Estava emagracendo [pois ele sempre foi gordinho] e estava ficando realmente bonito. Lembro que eu ri quando ele começou a levantar os pesinhos e felixionava o braço, querendo me mostrar que já estava ficando mais forte.

Eu lembro a primeira vez que cortei meus cabelos na altura do queixo e ele me zuou, falando que parecia um menino, mas que tinha gostado mesmo asism. No ano seguinte eu cortei meu cabelo novamente e eu mal podia esperar para mostrar para ele. Atrevo a dizer que cortei o cabelo por ele.

Felipe morreu num domingo. Por volta das 5 da tarde. Lembro que atendi o telefone e a Beta, uma vizinha-família dele, me perguntou onde estava minha mãe. Disse que ela não estava, mas para deixar o telefone para ela retornar. Eu me lembro da minha mãe gritando no telefone. Frases desconexas. "Diz que é mentira", "O Felipe não". Não entendi nada e meu pai veio e quando ele chegou perto, só ouvi minha mãe dizer: "É o Fê, mô. Ele morreu".

Minha mãe nunca mais ligou para a casa da Dirce, mãe da Beta. Até hoje ela não gosta de receber ligações. E eu, que estava perto da parede, me escorei nela e fui descendo até o chão, em choque.

A ida até a casa da tia Bel nunca foi tão dolorosa e ao mesmo tempo entorpecente. Minha irmã não estava conosco, já que ela tinha saído com uma amiga pro cinema. Ao chegar no prédio, a porta da casa da minha tia estava aberta e tinha várias pessoas. Depois de um tempo os meus tios da praia, junto com meus primos, chegaram e nós ficamos naquele limbo, onde nada era falado. As lágrimas gritavam por nós de qualquer forma.

Quando a minha tia chegou, para buscar uma roupa para o Fê, foi o nosso breakdown. Minha tia abraçou meus primos mais velhos e disse "Tudo o que o Fê queria era envelhecer para sair nas baladas com vocês. Ele queria ficar forte que nem vocês". Marquinho e Kadu tatuaram o nome do meu primo, em letras japonesas, nos braços.

Ele foi velado e enterrado no dia seguinte, na segunda-feira, no dia dia do seu aniversário de 14 anos. No dia 04 de dezembro de 2000. Foram poucos os momentos em que eu deixei seu lado. Eu o toquei somente uma vez, nas mãos. Tinha medo de tocá-lo, sentí-lo frio e saber que, de uma vez por todas, ele realmente tinha ido embora. Lembro da minha tia pedindo para era acordar, para comemorar o seu aniversário. Quando todos entraram para se despidirem, eu não consegui sair andando. Eu fiquei presa ao seu lado até que um dos meus primos veio e me arrastou de lá.

Na hora do enterro minha tia olhou para ele uma última vez, enquanto meu tio soluçava na cadeira de rodas. Eu lembro de ter visto uma outra menina soluçando, perto de nós. Algum tempo depois soube que ela era a namorada dele, da escola.

Nossa família nunca mais foi a mesma. O Natal, meu aniversário e o Ano-Novo daquele ano foram terríveis. Enquanto os fogos explodiam sobre nossas cabeças, nós nos abraçávamos e chorávamos de forma inconsolável. Não gosto de comemorar meu aniversário, 26/12, até hoje por conta disso. Assim como meu primo Marquinho também não [o aniversário dele é no dia 02/12, um dia antes do Fê morrer] e meu tio, pai do Fê, que faz aniversário no dia 01/12. Somente agora, depois de dez anos que estamos começando a superar essas datas festivas. Somente no ano passado que meus tios começaram a comprar presentes de Natal novamente.

O Fê era a pessoa mais iluminada e mais bondosa que já que conheci e que um dia irei conhecer. Eu costumo pensar que esse mundo era ruim demais para alguém como ele. Mesmo que Deus tenha sido, de alguma forma, impiedoso ao tirar ele da nós de uma forma tão bruta, fico feliz que ele não tenha que ser corrompido por toda essa nojeira que vivemos hoje.

Mas não tem uma vez que não imagino como seria se ele ainda estivesse aqui. Esse ano ele faria 23 anos. Como será que ele pareceria? O que será que ele estaria fazendo? O que ele teria se tornado? Qual seria a faculdade que escolheu? E a namorada? Tenho certeza que ele ainda seria meu herói.

Eu já sonhei com ele algumas vezes. É sempre estranho, pois eu o vejo e começo a chamar pelo seu nome, perguntando como ele está. Ele apenas sorri para mim e desaparece.

Nós quase nunca falamos sobre ele, eu nunca visitei seu túmulo, nunca revi a fita do meu aniversário. De alguma forma, mesmo depois de dez anos, acho que a dor ainda está muito próxima e palpável para todos nós. Já ouvi minha tia Bel falar sobre ele; da dor que é perder um filho, mas eu sempre fico muda. Não consigo falar abertamente sobre isso com a minha família. Falar entre os amigos é até fácil, mas falar com aqueles com quem você compartilhou o desespero e agora divide a dor da perda é outra coisa. Torna-se tudo tão mais real.

Um dia você esquece o som da voz. E a dor pode até se transformar em apenas saudade. Um dia você pode conseguir falar sem chorar até soluçar. Ou escrever um post e lembrar de o quanto éramos felizes por estarmos juntos. Um dia você segue em frente, mas o buraco ainda está dentro de você e ele não cicatriza, ele apenas para de pulsar. 

Hoje eu me lembrei do anjo que iluminou toda a minha infância e eu me sinto bem. Lágrimas chegaram aos meus olhos, mas elas não caíram. O amor que ainda sinto e sempre sentirei pelo Fê me aquece e me acalma. Ele está num lugar melhor e olha para todos nós e não quero entritecê-lo com a minha triteza ou minhas lágrimas. O luto já passou e como eu disse, hoje só resta a saudade. Talvez eu faça uma visita ao túmulo dele no final deste ano. 

Talvez, quando a gente se reencontrar, eu possa mostrar meu cabelo curto e ele possa passar as mãos entre eles e sorrir comigo. Como sempre foi.



Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que neste mundo
O verão acabou.
Cedo demais.

Eu te amarei para sempre, Felipe Parizoto.

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