Numa certa noite, eu, Allan e Carol [minha irmã], estávamos na Siciliano do shopping SP Market, pegando alguns livros e lendo. Na verdade estávamos lendo livros sobre signos, porque oi, adoramos esse tipo de coisa.
Num certo momento o Allan pegou um livro do São Cipriano e lá tinha algumas características relacionadas às pessoas que nasceram nos dias que nasceram. Eu nasci no dia 26 e lá tinha que eu "separo os amigos segundo categorias". No momento eu fiquei horrorizada e, é lógico, Allan e minha irmã começaram a me zoar, falando que eu era estranha por isso. Mas é verdade. Eu separo meus amigo segundo categorias, mesmo que estas não sejam propriamente rotuladas [ e talvez, ao longo dessa letter, eu descubra que essas categorias tem nomes].
Há amigos e amigos. Amigos do trabalho, amigos da faculdade, amigos de sair pro rolê, amigos dos amigos. Enfim, eu poderia continuar nisso até meus dedos cansarem.
Uma das "categorias" são os amigos-família. Papai, mamãe, irmã, titias. São aqueles amigos que você sabe que pode contar pra qualquer coisa. Porque, afinal de contas, é a tua família. Tu não teve escolha sobre isso e só resta você confiar neles [e que isso não seja visto de forma negativa]. Tenho sorte por ter os amigos-família que tenho.
Mas aí tem a categoria dos amigos-do-peito-por-opção.
Um dos grandes desafio sobre esse Letter Project foi ao verificar esse primeiro item e ver que ele pedia apenas um melhor amigo. E tudo o que eu podia pensar era que eu não poderia escrever sobre uma única pessoa, pois tenho a grande sorte de não ter somente um melhor amigo. Eu tenho dois.
E iremos começar pelo que conheço há mais tempo.
O Allan. Sim, o mesmo do começo do post, que maldosamente riu da minha cara. Ao falar que "conheço há mais tempo" não quer dizer que o conheço há muito tempo. O conheci em torno de outubro/novembro de 2009. Estava num bar chamado [por mim] Chão de Emo, na Sabará, com alguns amigos quando ele chegou, junto com o Henrique e o João. O Allan estava mal, pois naquele dia tinha perdido um parente muito querido. Eu não o conhecia, porém compreendia a dor que ele sentia e por isso. Na porta do banheiro, enquanto ele era consolado pelas minhas amigas, cheguei e falei que um dia a dor iria passar. Que no futuro só restariam as saudades.
Tudo o que eu conseguia pensar era que queria confortá-lo. E depois de algum tempo ele disse que eu o confortei com aquelas palavras de "um-menina-que-mal-conhecia-mas-que-se-preocupou-comigo".
Nossa amizade não floresceu de cara. Nos meses seguintes ele meio que não tinha olhos para muitas coisas a não ser uma garota, e como nos encontrávamos somente nos ensaios da banda dele [e ela sempre estava lá], a gente nunca teve uma oportunidade de conversar realmente. Mas sempre nutri muito carinho por ele.
Até o tempo em que um grande evento nos juntou e selou a nossa amizade: o show do Metallica.
Sim, o show do Metallica. Quem me conhece sabe da loucura-paixão-quase-obsessão que eu tenho por essa banda. E acontece de o Allan também gostar muito da banda. No dia 1º de dezembro eu já estava com a minha pista VIP em mãos e ele dizia que também iria no show. No dia 30/01, dia do show, eu liguei do meu trabalho, perguntando se ele iria mesmo, para que ele pudesse ir comigo até o estádio. Ele ficou enrolando [como sempre] e disse que estava sem grana. Eu prontamente disse que emprestava $100, mas ele tinha que ir. E ele foi [e eu quase o matei por me fazer esperar tanto no ponto do shopping Morumbi], de pista ainda!
E aquela foi uma das melhores noites da minha vida. E, mesmo ele não estando ao meu lado, ele compartilhou isso comigo. Não poderia pedir por um laço mais forte do que esse.
Nos meses seguintes grudamos um no outro. Todos os rolês fazíamos juntos. Eu dormia na casa dele e ficávamos conversando por horas e horas, até o dia clarear. Ele cozinha para mim! Fala sério, quer coisa melhor? Ele me fez gostar de pavê e isso não é pouca coisa. Ele me levava até o ponto de ônibus e esperava comigo aquele que me levaria de volta pra casa. Sempre abraçados. Sempre rindo. Às vezes nem era necessário dizer nada.
Como eu já disse tantas vezes pra ele, a gente nem precisa dizer muita coisa, só de estarmos no mesmo ambiente basta.
Eu aprendi tanto com ele e sua paciência em me explicar coisas que não consigo entender. Eu compartilhei tanto de mim e recebi tanto dele em troca. A gente se entende por um olhar e eu vejo ele no meu futuro, como ele disse, dois velhos na fila pra pegar a aposentadoria. Eu simplesmente não poderia pedir por alguém melhor pra ser um dos meu melhores amigos. É impressionante a liberdade que temos um com outro de falarmos sobre qualquer coisa. É imensurável o respeito e o amor que sinto por ele e por tudo que nós nos tornamos.
Eu já não sei se conseguiria funcionar direito sem ele.
O outro melhor amigo é o Daniel, a.k.a, Dan.
O Dan, por este mundo ser do tamanho de um ovo, é amigo do Allan desde que eles eram pirralhos. Já tinha ouvido o Allan falar dele, mas que, infelizmente, eles tinham se afastado um pouco. Até o dia em que fomos na casa da Brisa e o Dan foi junto.
Confesso que naquele dia minha primeira impressão do Dan não foi as mil maravilhas. Não que eu tenha pensado que mal dele. É que o Dan, na primeira impressão é uma pessoa muito quieta, da qual você não vê muita abertura para falar. E eu, como uma boa garota tímida, fiquei na minha. Trocando algumas palavras e nada mais.
Num um curto período de tempo o Dan começou a participar mais dos rolês que eu fazia com Allan [principalmente porque ele mora bem pertinho do Allan] e nós começamos a conversar mais. No começo eu não fui muito legal e até contei uma história sobre eu ser judia e que meus avós tinham morrido num campo de concetração nazista, somente para zoar com a cara dele. Mas isso não impediu da nossa amizade crescer.
E a cada encontro [seja ele pro coquinho, ou na cozinha e na varanda do Allan, ou pro Centro Cultural], eu comecei a ver as nuances que o Dan possue. Aquela primeira impressão de pessoa-estranha-e-quieta desmorou diante dos meus olhos e eu finalmente pude ver a pessoa maravilhosa que ele é.
Hoje eu até disse pra ele que sou uma pessoa sorturda por ter o encontrado.
É difícil descrever uma pessoa como Dan. Ele possue tantos gestos, tantas palavras, tantas emoções, tantas facetas que cada vez que você conversa com ele, você vê algo novo. Uma perspectiva, um pensamento, um conselho. Eu vejo a alma dele e eu a acho tão bela. Alma de artista, eu falo. E não é somente pelo seu inegável domínio no violão/guitarra, ou por suas composições maravilhosas ou por seus gostos profundos na música. Não. Ele tem aquela aura melancólica e sensível, da qual absorve tudo o que acontece ao seu redor e isso o transforma.
É difícil demais tentar explicar o que é o Dan. Mas acho que ao dizer que você poderia ficar, literalmente, conversando por horas com ele, sobre qualquer coisa, isso te diria que ele é uma pessoa que vale a pena ter por perto, certo? Eu realmente acho que sim, pois as conversas mais profundas, mais densas, mais filosóficas, mais doloridas, mais verdadeiras, mais sonhadoras, eu tenho com ele. O Dan gosta disso, gosta de desvendar. Eu eu gosto de ser analisada por ele, pois confio demais nele e é muito mais fácil tentar colocar as peças do meu quebra-cabeça com a ajuda de uma pessoa como ele.
Eu já não sei se conseguiria funionar direito sem ele.
Como você pode ver eu nunca poderia escolher somente um deles para falar. Não tem como. É como falar do outono sem querer falar de folhas caindo. Os dois estão entrelaçados na minha vida e não tem nem como falar de mim agora sem falar do dois.
Eu preciso da simplicidade, da leveza, da segurança que o Allan me traz. Eu preciso da sensibilidade, da profundidade e da melancolia do Dan.
Porque eu sou feita de pequenos pedaços. E esse dois, definitivamente, fazem com que eu me sinta completa e inteira.
Nunca se esqueçam eu que amo vocês.
15.9.10
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Definitivamente!! Eu já não sei se conseguiria funcionar sem você.
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